Acorde, Neo!
Jamil Salloum Jr.
Ponta Grossa - Paraná
A faculdade de apreensão de conceitos é característica comum dos seres viventes, variando em graus. Os animais apreendem, mas não compreendem. Manifestam inteligência, mas não autoconsciência, apanágio do homem. Apenas ao homem é facultada a possibilidade de transformar conceitos em concepções, por meio de reflexão, e, assim, transformar o ambiente e (re)construir o mundo.
É notável que muitos seres humanos, supostamente autoconscientes, vivem toda a vida como numa experiência onírica, sem, pela reflexão, questionar os dados que são oferecidos, do exterior, ao aparato sensório que lhes é próprio. Assim, vivem no mundo sem compreender o mundo. O mais grave é que desconhecem seu lamentável estado, daí o esforço de homens como Sócrates para provar que, na maioria das vezes, não se sabe, absolutamente, aquilo que se pensa que sabe. A maiêutica, ou parto de idéias, a arte da obstetrícia mental, era o maravilhoso recurso aplicado por aquela personagem singular, que espantou Atenas em sua época. Aliás, justamente por confrontar os homens com seus dilemas e paradigmas, com sua ignorância, é que o bom Sócrates, qual Cristo, foi assassinado, já em idade avançada.
O estado de vigília sempre é contraposto ao onírico, sendo que ambos constituem dois pólos da vida humana. Ao onírico toda sorte de explicações já foram oferecidas, e descobriu-se que, em dados momentos, pode apresentar rico cabedal de significados, com importância para a manutenção da saúde e da sanidade.
Acúmulo de dados não é conhecimento; existem grandes computadores humanos, com riquíssimo conteúdo. E só. Agem qual tambores: muito barulho, muita verborragia, mas quase nenhuma reflexão. Possuem memória prodigiosa, mas pouca discriminação. Logo, não conhecem, verdadeiramente, no sentido socrático. O discernimento verdadeiro permite transformar os dados apreendidos em novos dados, não apenas reter os antigos e reproduzi-los. Só aí podemos dizer que estamos trabalhando mentalmente. Mas como isso é raro! Mesmo nas Academias… Nestas uma tradição sub-reptícia foi criada, tradição de repetição de informações: a criação, a descoberta, a heurística verdadeira, é baldada. E não poucos alunos e professores prosseguem em uma rotina piedosa, em uma cantilena monótona, que, praticamente, pouca coisa acrescenta ao saber humano.
G. I. Gurdjieff escreveu: “Sugiro que cada um faça a si mesmo a pergunta ‘Quem sou eu?’ Estou certo de que 95% de vocês ficarão perturbados… Isso prova que um homem viveu toda a sua vida sem se fazer essa pergunta e considera perfeitamente normal que ele seja ‘algo’, e até mesmo algo muito precioso, algo que jamais pôs em dúvida. Ao mesmo tempo, é incapaz de explicar à outra pessoa o que esse algo é; é incapaz de dar a menor idéia desse algo, porque ele próprio não o sabe. E se não sabe, não será simplesmente porque esse algo não existe, mas apenas se supõe existir? Não é estranho que fechem os olhos, com tão tola complacência, ao que realmente são, e passem a vida na agradável convicção de que representam algo precioso? Esquecem de ver o vazio insuportável por trás da soberba fachada criada por seu auto-engano, e não percebem que essa fachada só tem um valor puramente convencional.” Está aí, magistralmente explicada, a experiência onírica durante a vigília, ou, popularmente dizendo, o sonhar acordado.
Sonhar acordado não é característica dos idealistas e dos visionários; estes são os precursores da raça, os que, verdadeiramente, estão em estado de vigília; o resto vive uma só e constante experiência onírica, sem vigília autêntica. São máquinas: agem, funcionam, e só. Engana-se quem pensa que a mera operação intelectual constitui a preparação para a vigília autêntica. É necessário uma cognição superior, que não passa pela mente ordinária, mas que pode ser preparada por esta. Schopenhauer, e outros filósofos, entreviram o segredo, sem ousar defini-lo. Aos místicos foi aberta a porta, depois de calvários físicos e mentais.
O filme Matrix, baseado em Platão e Baudrillard, tratou sutilmente deste assunto. Acorde, Neo!



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